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2º Encontro de Software Livre na Administração Pública - Dia 1

5:38 am outros assuntos

Primeiro dia do evento. Mal cheguei tive uma desilusão… a máquina de projecção das apresentações era Windows XP. Em meu redor estava sempre a ouvir máquinas com Windows XP a arrancar (será possível desligar aquele som irritante?) e, para terminar, as instruções de ligação à rede sem fios só existiam para XP. Era apenas a definição do proxy (proxy!?), mas não deixa de ser ridículo. Lá se foi a vantagem do fantástico NetworkManager.
Vamos ver se nos entendemos. Se isto fosse um encontro organizado pela Microsoft eu até entendia. A sério que sim, mas num encontro dedicado ao software livre acho de muito mau gosto por parte da organização. Concordo que assim foi mais fácil para o público alvo. Os decisores da função pública… que acham muita piada ao software livre, mas preferem continuar a utilizar produtos pagos com o dinheiro dos contribuintes. A idade avançada da maior parte dos presentes pode ser um bom indicador. Será que finalmente os decisores públicos vieram ver se aprendiam alguma coisa? Espero que sim.

Estas são as minhas notas deste primeiro dia.

Na sessão de abertura alguém, acho que era o Director do LNEC, queria tanto falar bem de software livre que meteu os pés pelas mãos. A determinada altura foi mencionado um novo sistema operativo que eu não conhecia. O sistema operativo Apache. Enfim… (Sugestão para os administradores: Ninguém espera que vocês saibam questões técnicas. É para isso que servem os técnicos… mas em caso de dúvidas, perguntem.)

O primeiro bloco, Software Livre no ensino, começou… com uma apresentação em Microsoft Powerpoint. Qual será o problema desta administração pública? Felizmente, já vejo muita gente a falar de software livre, mas não vejo quase ninguém a utilizá-lo. A administração pública não utiliza software livre. Pelo menos, não nos desktops. Longe e escondidinho na fria sala dos servidores, tudo bem. Nas máquinas pessoais querem software proprietário. É o exemplo dos nossos grupos parlamentares… Das pessoas presentes que conheci, apenas quatro utilizavam Linux. Será que nem num evento destes os participantes se dignam a utilizar, pelo menos, o OpenOffice!? Enfim… Deste painel fiquei com a sensação que o ministério da educação tem um bom grupo de trabalho em software livre. No entanto, também acho que as expectativas são demasiado elevadas relativamente aos conhecimentos dos professores no terreno. As coisas avançam, mas lentamente. Os professores mais antigos, simplesmente, recusam as vantagens das tecnologias livres, por falta de conhecimentos, e atrapalham os professores novos que querem fazer alguma coisa.

Os casos de sucesso na administração pública são sempre uma luz no fim do túnel. A Câmara Municipal de Arraiolos está de parabéns. Com apenas dois técnicos implementaram, mantêm e dão suporte a uma enorme rede de postos de trabalho de funcionários, escolas, etc. O progresso dos trabalhos no Ministério da Justiça são sempre agradáveis de acompanhar. O contrato existente de licenciamento Microsoft vai terminar no final de 2008. A decisão de não renovar este contrato já foi tomada. Esta decisão vai implicar (apenas) uma poupança de 3 milhões de euros anuais de dinheiro público. Boa!

A seguir ao almoço estivemos a “ver” um cego a utilizar Ubuntu com as capacidades assistidas ligadas (Orca). Foi muito esclarecedor. O momento alto aconteceu quando o apresentador desligou o cabo do projector de vídeo. Deixamos de ver o que se passava, mas conseguíamos ouvir e deu para perceber como é que um invisual trabalha com um computador. A boa notícia é que estas tecnologias, além de livres, funcionam muito bem em Linux… e se para um utilizador normovisual o design do sistema operativo pode ser um factor preponderante, para os utilizadores com necessidades especiais, o que interessa é que as coisas funcionem, como acontece com Linux.

O último painel do dia foi fantástico. Debatendo o tema “Open Standards” várias empresas vieram declarar a sua relação com o software livre. A frase que fica é a seguinte, da excelente participação do Gustavo Homem da ESOP (Associação Nacional das empresas de Open Source): “Se o software livre é para hoje, os standards abertos são para ontem!”. Sem dúvida uma grande verdade. A famosa inter-operacionalidade só é possível, mesmo entre programas proprietários, se existirem standards abertos e livres. Passaram por este painel, sem grande surpresa, a ADOBE e a Autodesk. E para terminar o dia, a presença da Microsoft…

Devo dizer que admiro muito a coragem dos infelizes que a Microsoft envia para estes encontros. Chiça! Coitados! O enviado desta vez foi o Sr. Miguel Caldas. Este apresentador portou-se muito bem… no sentido cómico. É sem dúvida um grande entertainer (sem querer ofender). A apresentação foi feita num ambiente leve e descontraído e como a plateia existente não faz ideia do que passa realmente ao nível técnico, a mensagem passou. É realmente um feito de relações públicas por parte da Microsoft. Na prática actuar de uma forma e nestes eventos colocar os seus representantes a falar como se a Microsoft fosse uma vítima destes maluquinhos fundamentalistas do Software Livre.
Houve uma breve troca de argumentos entre o Sr. Miguel Caldas e o Sr. Gustavo Homem que se portou lindamente e onde fiquei a perceber que o Sr. Miguel Caldas se defendia com semântica. Resumindo a sua defesa, quando a implementação das aplicações foi efectuada não havia standards definidos. Ficamos, sem querer, a saber que o Office 2007 foi feito em 2001 e como ainda não havia ODF, não foi incluído. Certo! Fiquei convencido…
O Sr. Miguel Caldas, no sentido de melhorar a inter-operacionalidade dos produtos Microsoft com a concorrência, pediu à plateia para definir as necessidades da inter-operacionalidade. Vamos a isso. Aqui ficam as minhas sugestões:

  • Abrir a API do Exchange para permitir o acesso de clientes de terceiros, conforme decisão do tribunal Europeu.
  • Realmente abrir a API do Active Directory para permitir o acesso de clientes de terceiros, conforme decisão do tribunal Europeu.
  • Abrir a API dos documentos DOC, XLS e PPS para permitir o total acesso de terceiros, conforme decisão do tribunal Europeu.
  • Utilizar os standards existentes sem reinventar a roda, nomeadamente: HTML, CSS, Javascript, LDAP, IMAP, SMTP, etc.
  • Parar de manipular as comissões técnicas, do mundo em geral e em Portugal no particular, injectando, entre outros, representantes dos Gold Partner sem conhecimentos técnicos nas mesmas.
  • (Neste momento não me lembro de mais nada, mas reservo-me o direito de ir actualizando esta lista).

O Sr. Miguel Caldas perguntou a determinada altura à plateia se existia algum standard que a Microsoft não cumpria. Não resisti e pensei em voz alta “LDAP”, lembrando-me das semanas perdidas a tentar integrar o AD com o Fedora Directory Service. No final veio ter comigo para pedir esclarecimentos adicionais. Alegadamente, a Microsoft implementa o LDAP à risca. Certo! Aproveitei para incluir na minha lista de reclamações o HTML do IE7 que tantos problemas causa em todo mundo (estranhamente concordou comigo) e o IMAP do Exchange que inclui objectos binários que não existem no standard.

Tenho que admitir que foi possível manter uma conversa civilizada com o Sr. Miguel Caldas. No entanto, e repito, da maneira que fala não parece estar a falar da Microsoft que conhecemos.

2 Responses

  1. Rui Miguel Silva Seabra Says:

    Faz parte da estratégia da Microsoft enviar fulanos o mais “friendly” e “nice guy” possível para poder dissimular a sua estratégia de agressiva assimilação total do mercado.

  2. Alberto Nunes Says:

    Quero apenas deixar a minha solidariedade para com o teu testemunho e, aproveito para te transmitir que na Escola Superior Agrária de Santarém, já consegui minar um posto de trabalho exclusivamente com Ubunutu, estando o funcionário extremamente satisfeito. Além disso, consegui a luz verde que tanto esperava por parte da direcção para avançar com a migração para OpenOffice!

    Um abraço.

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