O segundo dia foi mais calmo e sem grandes surpresas. A ODF Alliance tomou conta do dia. Antes do intervalo da manhã tivemos uma excelente apresentação por parte do Erwin Tenhumberg do grupo de trabalho da OASIS. A seguir ao intervalo presenciamos uma coisa muito interessante. O público ao entrar na sala tinha nos lugares uma folha A4 com algum texto relativo ao ODF, uma tabela e alguns logótipos. O que o Paulo Vilela da Sun conseguiu foi fantástico. Recriaram o documento que recebemos não numa aplicação, mas em várias aplicações que suportam ODF e nas plataformas mais usuais, nomeadamente: Linux e Mac.. ah. e Windows também.
Primeiro criaram um novo documento no Symphony da IBM (outro Office) em ambiente Windows. Escreveram umas frases, gravaram e reabriram o mesmo documento no OpenOffice. Continuaram a elaboração do documento. Voltaram a gravar, colocaram o ficheiro numa caneta USB e transferiram o ficheiro para um Mac OS onde continuaram a edição do mesmo com o NeoOffice. Transferiram o ficheiro para Linux onde o editaram com o OpenOffice. Em cada passagem, o documento ia aproximando-se do resultado final. Para terminar, voltaram a transferir o ficheiro para ambiente Windows, onde o abriram com o Word. É verdade. Com o Word preparado com o plugin ODF. Até neste caso as coisas correram bem. E pronto, foi demonstrado ao vivo a inter-operacionalidade do formato ODF. Esta é a funcionalidade que se pretende entre os utilizadores. Só a Microsoft é que parece não ver isso, agarrada aos seus formatos arcaicos que insistem em atrasar o avanço tecnológico.
A manhã terminou com uma fantástica apresentação do Gustavo Homem (ESOP) que expôs alguns casos de sucesso de migrações de clientes das empresas associadas da ESOP. Foi bastante esclarecedor. Por vezes, por falta de divulgação, pensamos que as coisas não evoluem, mas aí estão as provas. O Software livre veio para ficar, o mercado apenas pode atrasar o inevitável.
A parte da tarde foi interessante. Estive a participar de um workshop sobre migração para OpenOffice. Foi muito interessante, não pelo que aprendi, mas pelos relatos que ouvi dos participantes… por exemplo, sabiam que a empresa Radio Popular, nos mais de 1000 postos de trabalho em toda a península Ibérica, utiliza OpenOffice a 100% e Linux a 70%. É realmente fantástico. E isto relatado com entusiasmo pelo director técnico da própria empresa. Não é boato.
Também foi positivo estarem presentes três elementos da Assembleia da República. A lei passou e os técnicos vêm com agrado a perspectiva da mudança. Estão a reunir competências para futuramente poderem, com sucesso, responder aos pedidos de instalação de software livre nas máquinas dos deputados do PCP e BE. Os outros gostam muito do Bill.
Aprendi neste workshop duas dicas fabulosas para lidar com a resistência dos utilizadores à mudança. Mente-se!
- “Dizemos aos utilizadores que o OpenOffice é a mais recente versão do Office da Microsoft” - Presidente da ANSOL
- “Baralha-se os utilizadores! Eles nem percebem qual é o sistema operativo em que estão a trabalhar.” - Director Técnico da Radio Popular
Esta última dica aconteceu na prática. Os técnicos da Radio Popular colocaram o Windows o mais parecido possível com o ambiente Linux, o Linux o mais parecido com o ambiente Windows e fizeram o “deployment” simultâneo das duas imagens. Curiosamente, ao fim de algum tempo, os funcionários que estavam a utilizar a imagem Windows começaram a reclamar que a máquina do colega do lado era mais rápida e não “crashava” três vezes por dia, como a deles. Exigiam uma máquina igual.
E foram estas as minhas impressões do encontro deste ano. É agradável ver que as coisas estão a melhorar em cada ano. O software livre, cada ano que passa, melhora a sua imagem e depois do exemplo (que ainda está para vir) da Assembleia da República não vai demorar muito tempo para que o mundo empresarial desperte para esta realidade.